sexta-feira, 12 de junho de 2009

Um pouco de amor ....pra começar a entender essa história

Mariahzinha,
A mamãe decidiu escrever para registrar um pouco dos sentimentos que está vivendo por ocasião da espera de sua chegada.
Antes de tudo é necessário dizer que você é um fruto de amor pleno.
Eu e seu pai temos uma história que se romanceada seria literária e o contrário também vale: se literatura seria um grande romance: Conhecemo-nos através da internet, amei-o por sua escrita inteligente, sincera, humilde, e muito ética.
Perdemo-nos e, depois, nos encontramos em e-mail novamente, mas desta vez era eu que escrevia sobre como seria importante para a sociedade à proibição de venda de armas de fogo...Militantes os dois, nos vimos num debate de organização partidária...Ele tinha namorada, eu tinha mãos e pernas trêmulas ao vê-lo... Uma cara de bravinho que você conhecerá, e, assim como eu, saberá que é para disfarçar um pouco de seu coração generoso e doce.
Então, já passávamos horas juntos...
Conversávamos sobre tudo: artes, política, certezas, incertezas, sucessos, frustrações, amor, sociedade, filosofia, educação, dignidade e, nossa! - Como gostávamos e gostamos de falar um com outro!
Tomamos porres, choramos perdas e comemoramos vitórias... Éramos parceiros, em breve tornávamos cúmplices.
Eu defendia tantas coisas, tantas bobagens, perto do que preciso defender hoje: Minha defesa maior e melhor é por você.
Quando convenci e venci seu pai para namorarmos, imediatamente decidimos por você. Não filha, você não foi planejada ali, mas como estávamos certos de que estaríamos para sempre um ligado ao outro, era preciso que eu recuasse na minha posição primeira de não ter filhos e depois na posição de que fosse por adoção.
Você ficou possível.
Queria seus olhos iguais aos dele, e, ele, sua boca igual a minha, e queríamos você num mundo melhor, numa cidade melhor, com pessoas melhores.
Desejávamos você para um futuro próximo, um momento tranqüilo de estabilidade financeira e coisas assim tão pequeno burguesas... Afinal, tínhamos tanto para mudar no mundo, que nem estávamos vendo que o que realmente precisava mudar éramos nós.
Lutas, campanhas, grilos, e uma vida em alto risco.E, você veio com uma história única, mas como a maioria das histórias atuais: pais não tão jovens, desempregados, estudantes, graduados, contraceptivos, cerveja, cigarro, enjôos que se parece com dores no fígado, ou talvez gastrite, e coisas assim que terminam com olhos marejados num banheiro com um teste de gravidez de farmácia dando positivo.
Estávamos loucos, uma felicidade enorme nos arrebatava naquele momento.
Dois adultos sentindo-se adolescentes: o que dizer para os pais – seus avós paternos e maternos?Nestes momentos minha filha, talvez eu nem devesse escrever isso, porque é confissão de minha mediocridade, mas talvez lhe valha de alguma coisa: - o óbvio nos escapa, e somos arremessados contra um muro enorme de tijolinhos produzidos com a massa de nossos piores medos, e todas as razões de incertezas, tipologias de deficiências...
Só nestes momentos é que tudo que carregamos como certo em nossa existência se transforma em verdade: a incerteza do que esta por vir.
Tudo o que eu e seu pai sentíamos era que amávamos você, e para nós você era apenas alguns minutos de existência.
E você tornou-se soberana: mudou-nos com a força e a sensibilidade natural das mulheres que lhe antecedem nas duas famílias.
Hoje, falta pouco tempo para que conheçamos seus traços, sons, cheiros... Suas caretas e seu "gênio".Será explosiva?- como seu pai. Será birrenta? - Como eu.
E o que quero dizer é que você é uma revolucionária de verdade, chama-se Mariah, mas podia ser Olga, Rosa, Virgínia, Rita, Marina, Chica, Ana Carolina, Dandara, Joana, Anita, Elis, Clarice, Lygia, e tantos outros nomes, mas chama-se Mariah, o hebraico de Maria que é nome da mãe de Jesus Cristo... Maria é a única figura feminina presente ativamente e sendo protagonista nas religiões.
Por falar em religião, caminhei por várias instituições, credos, seitas, crenças, doutrinas: todas com suas belezas e suas ausências do belo. Então, eu descobri que o importante é acreditar que se pode ser melhor sempre, nisto se baseia toda a minha espiritualidade. Seu pai acha interessante minha forma de pensar.
Sobre ser mulher no século XXI? Gostaria muito que você soubesse que temos um mundo menos machista que no século passado, mas ainda assim existe muita discriminação por gênero, etnia, crença, classes... Hoje, algumas de nós mulheres descobriu que não queremos ou precisamos ser iguais aos homens, porque nem eles são iguais ou querem a mesma coisa, minha filha. Não queremos ser mais ou menos, queremos ser felizes, completas e respeitadas - e isso por si só, já é uma barra danada! Queremos amar, ter o direito de ser amadas da forma e por que forma for... Somos em essência: todas mulheres!Minha vontade e desejo é que você seja: Feliz!E posso dizer, ao final desta carta, que já sinto um amor danado por você.

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